Histeria entre estrutura e discurso
o desenvolvimento da histeria em lacan
Como Lacan reconceitualizou a histeria como discurso produtor de verdade e contestação das certezas do mestre contemporâneo.
Cresci em contato próximo com a arte e a literatura brasileira, experiências que contribuíram de maneira decisiva para a formação do meu olhar sobre as pessoas, suas histórias e seus modos de estar no mundo. Autores como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector estiveram presentes desde muito cedo em minha trajetória e, retrospectivamente, reconheço nesse encontro inicial com a literatura uma das vias que me conduziram ao campo das Ciências Humanas, ao qual hoje dedico minha formação e meu trabalho.
Sou graduada em Psicologia pela Faculdade Multivix Vitória (2015–2020). Durante a graduação, aproximei-me especialmente de dois campos que passariam a orientar meu percurso profissional e acadêmico: a saúde pública e a psicanálise. Entre 2021 e 2023, realizei a Residência Multiprofissional em Saúde da Família pelo ICEPi/SESA, experiência que possibilitou aprofundar minha formação teórica e prática no âmbito da Atenção Primária à Saúde e conhecer de maneira concreta os desafios, as potencialidades e a complexidade do cuidado produzido no Sistema Único de Saúde.
Meu percurso acadêmico e profissional tem sido, assim, atravessado pelo interesse em compreender as formas pelas quais a subjetividade se constitui em relação às condições históricas, sociais e políticas de cada época, articulando a experiência clínica, a pesquisa em psicanálise e o compromisso com o campo da saúde pública.
Minha pesquisa situa-se na interlocução entre psicanálise, política e saúde coletiva e investiga a trajetória da histeria no Ocidente a partir de suas diferentes inscrições históricas, sociais e culturais. Interessa-me compreender como a figura da histérica foi produzida e transformada pelo imaginário de cada época — da associação entre feminilidade, possessão e desrazão às formas modernas de medicalização e patologização do sofrimento —, evidenciando tanto o caráter historicamente situado de suas representações quanto o lugar decisivo ocupado pelas próprias histéricas na invenção da psicanálise.
Parto da ideia de que a psicanálise não nasce simplesmente da observação da histeria, mas também daquilo que as histéricas fizeram vacilar no saber médico. Ao insistirem em seus sintomas, em suas narrativas e na singularidade de seu sofrimento, as histéricas participaram ativamente da construção de uma nova forma de escuta e de compreensão do sujeito.
Essa investigação se prolonga até o presente, especialmente na análise das relações entre neoliberalismo, sofrimento psíquico e saúde pública. Em um contexto marcado pela individualização dos conflitos, pela exigência de desempenho e por formas cada vez mais rápidas de classificação, adaptação e silenciamento do mal-estar.
Interessa-me pensar em que medida a psicanálise pode sustentar uma posição ética distinta. Assim como ocorreu em seu encontro inaugural com a histeria, trata-se de devolver ao sujeito um lugar central na elaboração de seu próprio sofrimento.
Reconhecendo o sujeito não apenas como objeto de diagnóstico ou intervenção, mas como alguém implicado na produção de um saber sobre aquilo que o atravessa.
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Publicações, ensaios e reflexões teóricas sobre a prática psicanalítica e a cultura.